terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

caminhada

Tenho pernas grandes
não corro atrás de bola
tenho pés ligeiros
não danço.
Tenho passos largos
Degraus,
de dois em dois
como tudo deve ser.
Mas algumas escadas insistem,
para meu desespero
e para o sarcasmo no sorriso do canto das bocas de engenheiros
e arquitetos,
que desenham e executam
sempre
um número ímpar de degraus e
me encurtam o último
e decisivo passo da chegada.

(biel)

liberdade

dois quilômetros
pé na porta
dezesseis tiros no peito
e a impossibilidade de salvá-la do estupro não tão inevitável de que gozava.

(biel)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Soneto da avaliação V

São muitos, hoje, os fabulosos métodos
Já disponíveis no mercado para
Avaliar cientificamente até todos
Filhos desta nação ubirajara!

Avaliação especial aos réprobos
Das redes públicas, exata e clara,
para livrar de vez também os netos dos
contemporâneos da agrura da vara.

Entre eles, destacamos p'ra vocês:
Testes de inteligência, TOP 10,
Fuvest, IBOPE, sondagens, concur-

sos, distratores e no-milho-ajoelha.
Se calcinha vermelha, nota azul.
Mas se calcinha azul... nota vermelha!

(Pau no Gu)

Soneto da avaliação IV

“Numa terra de morenos”, Clarice
soprava que “ser ruivo era revolta”,
“revolta involuntária”, mas sem volta –
Só clandestinidade, ciganice –.

Uma vida sem tribo, pois, que abrisse
Trincos, janelas: riscos sem escolta –
Nem mesmo a de uma “tribo ruiva” –. À solta,
Aos relinchos, à pirlimpsiquice.

Os morenos, porém, que nem são pretos
nem brancos, sentem ódio desses ruivos
E inventaram, para enfim lhes dar tetos,

notas baixas, vermelhas, humilhantes.
Os revoltosos persistem aos uivos.
E os ares ficam mais rubros que dantes.

(Pau no Gu)

Soneto da avaliação III

Caros senhores professores, nada
de atribuir a nota mais vermelha
com punhados de terra roxa em ovelha.
E muito menos com a tal pincelada

na barba de Van Gogh! Não, não. Cada
nota será a que lhe der na telha,
mas siga atento o que o MEC aconselha:
Só vermelhar se for com mãos de fada:

Primeiro, o detergente de maçã;
Depois tempere com muito urucum,
p’ra fazer, dos moídos, no The Wall,

molho pardo. Depois usamos um
dos marcadores de gado, sob o sol
a pino, em fogo, em brasa, in memorian.

(Pau no Gu)

Soneto da avaliação II

Contem-me, coordenadoras, colegas,
será esfregando rosas desgrenhadas?
Ou com o batom dos beijos e dos pegas
no homem da vida, morto já, a facadas?

Ou com a menstruação daquelas negas
dele, nas traições, nas canalhadas?
Ou com choro de vela de Las Vegas?
Gotas de sangue aidético doadas?

Atribuímos as notas vermelhas
com o quê mesmo? Será nas sobrancelhas
e bochechas lanhadas de borrão

de rímel escorrido pelas lágrimas?
Ou em ventres, com haraquiri, a sabre?
Mas... é que eu sou nova na profissão...

(Pau no Gu)

Soneto da avaliação I

Atribuir as notas bem vermelhas
para aqueles punhetas do caralho
com esmalte das putas desse atalho?
Com pentelho de conas ruivas, velhas?

Com cacos dos rubis de brinco, a talho
desfeitos pela Dama das Camélias
do bordel? Com tintura no grisalho
dos cabelos? Com vinhos? Com centelhas

de lava de vulcão? Ou com o tridente
do Capeta sedento de buceta?
Com a mão inflamada de punheta?

Ou com cuspe de tísico? Contente
e hemorrágico? Ou então com gorjeta
em púbis gonorreico na sarjeta?

(Pau no Gu)

Soneto humanizador I

Bafejava palavras, o docente,
E seu bafo impregnava, forte e quente,
A sala d’aula inteira: das carteiras
Aos uniformes, por todas fileiras,

E logo o pátio, enfim o continente.
Trucidava, ele, as escovas de dente,
Cultivava piorreias e boqueiras,
Cáries e todo o ódio às enfermeiras.

Era, o bodum, de tal modo bestial
Que qualquer um passava muito mal,
Abandonado à própria selva esconsa.

Suas palavras fediam carniça,
Não cheiravam a certeza castiça.
Dizem que bafejava em língua de onça.

(Pau no Gu)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Coreographia IV

Os bailarinos movem-se no palco...
E, presa, a professora engarrafada.

Os bailarinos movem-se no palco...
E, presos, carros no estacionamento.

Os bailarinos movem-se no palco...
E, presos, funcionários bilheteiros.

Os bailarinos movem-se no palco...
E, preso, o público em seus brandos bancos.

Os bailarinos movem-se no palco...
E, presas, as palavras no libreto.

Entra no palco a bailarina! a Paula...
E! preso! meu coraçãozinho pára

(Gustavo de Paula)

Repetitéur I

Mahmud Sobh diz do
poeta
da literatura árabe no califado omíada:

Vive um amor
exclusivo.
Ou seja, não sente amor mais que por
uma
única
amada.

Não pode apaixonar-se por nenhuma outra. Não há mulher que a iguale nem que possa substituí-la. Daí que alguns poetas sejam conhecidos por seus nomes junto aos de suas respectivas amadas: Qays-Laylà, Qays-Lubnà, Ŷamīl Buţayna, Kuţayyir-‘Azza etc.

(Gustavo de Paula)