terça-feira, 7 de agosto de 2012

Minha roma

Incendeio a cidade com os sóis das constelações do teu corpo
Nero, com a lira na ponta dos dedos
vejo queimar
ouço os gritos
vejo os corpos se retorcerem consumidos

Olha pra baixo e vejo as estrelas
e nas estrelas me atiro
lambo os sóis que despontam no universo
e neles me afogo, me curo e incendeio
a cidade
concreta
derrete

terça-feira, 31 de julho de 2012

SUPERFÍCIE

Chega em casa
e relaxa
de vagar

descalço já
procura
o espelho mais próximo
te contempla
uns instantes
inveja
aquele que te olha

mas não por muito...

atira-o ao chão
sem mais pesar
caminha sobre ele
deixe-o a tuas imagens e semelhanças
desenhadas
impressas
em vermelho tudo fica tão bonito

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Quando ela passa

Sugiro o sorriso de Mona Lisa
assim mesmo, de leve,
e sorrio, um pouco demais.

Do outro lado, ela enlouquece
faísca de raiva, uma raiva bege que ferve sobre sua pele negra e bonita.

Do lado de cá, o sorriso diminui,
agora sim, Mona Lisa!

Atravesso a avenida e, do canteiro central,
me volto
a tempo
de ver a expressão atenuar-se num insulto do olhar
meio de lado, mas sempre superior.

Contento-me com o horizonte,
concreto,
onde aquelas asas batem
asas negras
que de todo me abraçarão no sonho
do outro lado da avenida.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

e é um nome,
estranho nome.
deus?
deusa?
- veja,
a questão não está, deveras, no nome,
mas na indelével graphia com que me gravas
nos incólumes muros da tua cidade.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Na ponte

Lá do fundo do abismo
onde beira a incerteza
na calada da vertigem
a secreta correnteza

O espelho d'água dos teus olhos iluminados
de profunda escuridão
desabam
avalanche no verso em construção

lá do fundo do abismo
onde beira a incerteza
na calada da vertigem
a secreta correnteza

O convite dos teus olhos iluminados
de profunda escuridão
desabam
avalanche no homem em construção

lá do fundo do abismo
onde beira a incerteza
na calada da vertigem
a secreta correnteza

O grito dos teus olhos iluminados
de profunda escuridão
desabam
convites aos meus olhos em construção

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Num hiato da palavra
num abismo do som
num vácuo vocal
consoante muda
dissonante
hora H
bomba H

sábado, 23 de junho de 2012

uma noite

navalha cega debaixo da pele
navega solta do cerne da carne
viaja sedenta em busca do gozo
deságua ardente no pulso da noite

risada larga de dentes mordidos
fumaça sujando de leve o horizonte
obscura paisagem derrete de leve
revela seu brilho diante do luar

ainda sangrando a noite descalça
esmaga no asfalto os últimos sonhos
rasga na carne os últimos desejos
cabendo inteira na palma da mão

quinta-feira, 14 de junho de 2012

FIM DE TARDE

a língua toca a calçada
na chuva,
lixa sangrando as papilas gustativas
num vigor de moço jovem que ainda sou.
espero um gozo enternecido
um vão.

mordo o concreto,
ela não geme;
cravo as unhas no asfalto,
ela não se arrepia;
penetro a boca de lobo,
ela não me dá prazer.

resta uma raiva sulfurosa,
uma úlcera de adormecer ao gosto do café
e vê-la toda disposta:
lânguida vertical pernas abertas,
invaginando a todos.
ninguém sai incólume

sábado, 5 de maio de 2012

do tempo

o tempo
nessa cidade
é estranho

quando se tem
todas
as horas
passam
perigosas

terça-feira, 1 de maio de 2012

do travesseiro

como seriam todos os dias
não dias fossem o que são?
dias

dia a dia
dia após dia
dia após o outro

esse outro que ergo
com a força das pálpebras
outro que não posso ter
dia que não acontece