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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Excerto de relatório de estágio - Epístola de uma discípula a seu mestre - Setembro de 2009

O GUTASVO É GOTOZO
O GUTASVO E LIDO
O GUSTASVO MUTO GOTOZO
OBRIGADO
BEATRIZ

Excerto de relatório de estágio - Agosto de 2009

Gabriel: - Eu gosto de arrancar dente, sabia?
Eu: - Você é um dentista, então?
Gabriel: Você sabia que não é a fada-do-dente que traz o dinheiro? É a mãe...
Eu: - Magina! Como assim? E quando não se tem mãe? É a fada, sim!
Marco: - Quando ele crescer, vai virar fada-do-dente.
Gabriel: - Ah, se eu fosse, era pequeno. Estaria em escondido em seus cabelos (apontando para os meus).
Marco: - Ou nessa barba, então!
Gabriel: - Imagina quanta fada-do-dente não têm nesta barba.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Excerto de relatório de estágio - Dezembro de 2009

- Professor, qual o seu morto preferido?

sábado, 9 de maio de 2009

Excerto de relatório de estágio - Abril de 2009 - Cronilógico

- Vou fazer aniversário na terça que vem.
- Nossa! Que bom! Quantos anos você vai fazer?
- Vinte e três.
- Você não tem vergonha? Devia fazer uns quarenta... quarenta e pouco...

(Gu)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Excerto de relatório de estágio - Análise documental: uma carta, uma carta de amor

Pois assim é, Bem-Amada... nos arrancaram primeiro o lar, depois os filhos e, finalmente, nos separaram. E a dor, agora, consome até a derradeira veia...
Não te entristeças, contudo, Bem-Amada, que há muito principiara teu sofrimento e, a despeito de ter ele também talhado cada pétala morena do teu corpo, já é hora dos sorrisos virem abrir a flor dos seus lábios, onde orvalham o mel e o alfabeto.
Não te entristeças, que a tristeza eu a bebo toda. Tens marido, filhas, 2º ano, CEUs, escola em Cotia, eu tenho o cipó, na casa da Vó, eu tenho a poesia; e a tristeza, portanto, roubo-a inteira dos teus olhos e não reparto. Segue com tuas sandálias de felicidade. Segue, que, se seguires, nem a morte me roubará de nós.
Não te entristeças, morena bem amada! Não te entristeças, pois que minhas mãos, estas que ora te escrevem, ainda estão junto às tuas, sujas de cola. E ainda confeccionam cartazes de calendários e parlendas. Ainda repassam os mesmos exercícios de matemática e as mesmas palavras, com A, com B, com C, com D, com D, com D... Estas mãos ainda tremem e suam frio antes de sonharem acarinhar, brevemente, mais uma vez, teus cabelos sem luar, teus ombros, antes de sonharem tombar no precipício calicino da tua cintura. Estas mãos minhas não se desvencilhariam da cola tenaz das tuas mãos, a não ser quisesses muito. E olha, pensando bem, possivelmente nem com tanto querer assim.
Não te entristeças jamais... já que, afinal, quem faz os calendários ainda sou eu, todo mês. Ainda escrevendo de azul o que era para ser vermelho e de preto, o que era para ser azul e, de vermelho, o que era para ser azul e preto. E já que, no fundo, sempre foi e continuará sendo, para onde apontam os teus seios, que eu cego seguirei.

(Gu)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Excerto de relatório de estágio: sem mês

Aconteceu num dia tipicamente paulistano. A manhã assoberbada por uma série de compromissos, obrigações, responsabilidades, que não se acomodariam à manhã nem que ela tivesse 6 horas a mais do já tem. Saí uns minutos atrasado, abandonando alguns deveres; esperei muito tempo o ônibus. Que, não satisfeito em atrasar, resolve se quebrar no meio do caminho. Outra longa espera, sob o sol à pino ardido. Cheguei na escola quase 2 aulas inteiras atrasado, prestes ao recreio, já sem voz para me desculpar diante da Diane, das nossas crianças, nem de mim mesmo - afinal de contas, dentre tantas razões boas e melhores, como vou eu cobrar disciplina dos meninos, se eu não a tenho nem de chegar no horário estabelecido? O Victor me chamou. Abri os lábios para dizer que já ia, a voz definitivamente decidiu não sair e se esconder lá no fundo, apenas balancei a cabeça cabisbaixa e fui em direção a ele. Me abaixei para ouvir o que ele queria, temeroso. Ele deu uma fungadinha esperta nos meus cabelos e disse sorrindo satisfeito:

- Olha, gente! O professor tá com cheiro de sol!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Excerto de relatório de estágio: Novembro - parte II

As crianças sempre sabem tudo. Sabiam, por exemplo, da intromissão por vezes ruidosa da Princesa Cíntia e muito se incomodavam, não sem razão, com ela. Demorei demais, mesmo lendo coisas de Psicanálise, para saber que (sobretudo) as meninas dividirem (quando não disputarem mesmo) o amor do pai com a mãe já era o máximo a que podiam suportar sem grandes alardes, mas dividi-lo com uma terceira era demais!
Pois justamente após o dia 10 de Novembro, logo após, a Bia me veio perguntar pela Princesa Cíntia colorindo a melodia da voz com a costumeira truculência do corpo, com alguma malícia já sensual e com espessas tintas de ciúme. Eu respondi com uma pergunta:
- Porque você acha que eu estou de preto? Estou de luto: ela morreu.
Com riso maroto, a Bia me pediu o telefone dela.
- Mas ela está morta!
- Mas eu quero o teleone dela.
- Mas você vai ligar e ninguém vai atender!
- Mas eu quero ligar, mesmo asim.
Não queria. Depois de conseguir o exato número do telefone da Princesa Cíntia (que aliás "agora que voltou tudo ao normal, talvez consiga ser menos Rainha e um pouco mais real"), apenas com a troca de um 1 por um 0, a Bia foi mostrar o número para a Diane, como acusasse minha traição, dizendo que ela era a minha namorada. Agora, sim, que finalmente a terceira havia falecido, a Bia se sentia no direito de revelar meus adultérios. Obs: ela, que sempre pareceu tão sem limites, neste caso, por exemplo, conseguiu esperar silenciosamente por meses - muitos de nós não conseguem esperar.
A Diane estava sentada, rendida por um longo cansaço. Levantou-se. Atravessou a sala toda com seus passos altaneiros e perguntou pra mim, calmamente, apesar de nitidamente ofendida, quem é esta tal de Cíntia? é sua namorada?
Jamais saberei, a Diane saberá?, quantos dicionários correram pelos meus lábios, quantas mil e uma noites, antes que eu pudesse dar uma resposta definitiva. Respondi que não era ninguém, que era ficção. Em seguida, a Diane quis esconder o ciúme, disse que perguntava porque sua chefe da outra escola se chamava Cíntia e que temia precisar ligar pra ela por alguma razão. Eu deixei a Princesa Cíntia escapar dos seus reinados e neguei sua existência. Não podia falar da sua morte - pra falar de morte, é preciso falar de vida...
Homem não presta.

(Gu)

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Excerto de relatório de estágio: Dezembro

Eu estava sentado junto ao violão, concentrando a mim mesmo, a minha voz e o violão, para, enfim, render minha última homenagem do ano à minha bem-amada Diane, cantando uma canção. Ela chegou na escola. A concentração de nós três quase que foi totalmente pro saco. Mas ficamos firmes em nosso cantinho, esperando que ela se aproximasse.
Ela tardou... tardou... até a concentração tinha voltado já...
Eis que ela chega, com seus passos leves e lentos de quem sabe que cada seu passo moreno é um acontecimento, é um milagrezinho, e que deve, portanto, acontecer sempre de repente e sempre vagarosamente, pra poder ocupar cada pedaço do coração; ela chega e me entrega um presente de fim de ano.
Fiquei atônito!
Eu jamais poderia esperar!
Aí, sim, foi totalmente pro saco a nossa concentração.
O presente era um(a) champagne e um panettone.
Depois até toquei e cantei a canção, mas qualquer coisa seria muito pouco diante deste gesto tão lindo.
À noite, em casa, corri para o quarto, para sentir na boca o gosto de ser amado: comi um pouquinho do panettone, sempre muito pouquinho e tanto mais demoradamente que os passos da Diane.
Beijos de uva passa cristalizada e taças pela madrugada...

(Gu)

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Excerto de relatório de estágio: Novembro

DA PROFESSORA:

Certa feita, fraquejei e tive de ser um ser humano por um dia. Vocês sabem a que conseqüências isso pode levar... O que vem de patadas, de coices, de garras, não se escreve. Eu sei que é piegas; sem meias palavras: pieguíssimo, escrever isso de não se poder ser humano. E, é claro, nem é verdade verdadeira, pois que as patadas, os coices e as garras também são dos humanos. Mas sei lá.
Bom, o que eu sei é que fraquejei, cheguei na escola, a professora perguntou como eu estava e eu respondi que “mal humorado”. Esse é o tipo de duas palavras que, com minha entonação, naquele momento, para aquela pessoa, chamaríamos grosseria. Eu tinha mil outras maneiras de dizer aquilo pra Diane, mais de acordo com o léxico que estabelecemos para com-versar, inclusive mais sinceras, mas disse do jeito que disse. E assim começou o desmoronamento.
As crianças gostaram. Estava tão feroz comigo e transferi tão bem minha fúria pra eles que todos ficaram quietinhos, como se não estivessem mais abandonados numa escola tão grande e tão fora de casa.
As crianças saíram, ficamos só eu e a Diane. Confessei que precisava de carinho. Aí desmontou o homem sempre em montaria e armadura, de cavalo e moinho de vento, de espada e escudo, arcaico, que defendia a Diane das injustiças da coordenadora e da diretora, que enfrentava com poeminhas circunstanciais, bielotruffas, chaveirinhos, perfumes, paciência, carinho e bom humor a falta de carro, de marido, de amor, de coragem, de força (sempre provisórias) da Diane. Ela não esperava. Respondeu em quatro tempos:
- pôs a mão na minha cabeça (gesto mais erótico dela, que teme os corpos como ninguém - a ponto de regular o rosto pro beijo de cumprimento).
- perguntou: “O que eu vou fazer de você, Gustavo? Jogar no lixo?”.
Vendo minha expressão de “Porra, você tá bem louca?”, ela tentou pela terceira vez:
- Vou jogar água em você!
Por fim, engatou sua última tentativa:
- Vou te por pra dormir.

Posso dizer que não esperava, dessa maneira, nenhuma dos momentos. Mas esta resposta encerra um carinho que não tinha conhecido antes. Desde o primeiro momento, tentando aproximar seu corpo (tão sabidamente desejado) do meu, passando pela rejeição absoluta, pela vontade de me acordar - literalmente - para a vida, até terminar no gesto materno de me pôr pra dormir, reconhecendo que a vida não tem muito jeito mesmo.
Tudo isso, de improviso, foi muito diferente das patadas, coices etc etc em estado puro a que estamos acostumados a receber depois de cometer a perigosíssima frase: “preciso de carinho”. Tudo isso me deu a alegria que todo homem pode querer, que é a de poder tirar a montaria. De noite.

(Gu)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Excerto de relatório de estágio

DA PROFESSORA:

Não se saberá que descaminhos me trouxeram aqui, mas se alguém, aliás, souber, pode me contar, em sendo da vontade, um dia, mas pra quê tantos seios?
Ela parece minha esposa. E tem muitos anos já, de vida; o que faz parecer também que eu sou casado de longa data. E eu olho ela ardendo, como se fosse e sendo virgem. Parecemos pais, durante 5 horas diárias, de muitas crianças.
Ela é tão linda mãe... Rigidamente linda, carrancudamente linda, severamente linda, amorosamente linda. Tem solução pra tudo, ela! E não é, assim, que ela fique pensando pensando e ache uma solução: mal o problema quis acenar existência, de longe, e ela já resolveu.
Podia bem ser minha mãe também.
Ela traz marcas, na barriga, nítidas de que já foi mãe. Duas vezes. Tamanhamente sensuais os sinais de gravidez. Eu é que não queria uma mulher que não fosse mãe! Aquela chapação de barriga: eca! Tô é fora! Às vezes, dá pra ver um pouquinho da barriga.
Isso tudo porque vocês não viram as mãos dela! Era, um dia, ela passando cola nos cartazes com as mãos nuas. Aí foi que a mão dela ficou linda no seu esplendor. O branco da cola no branco das unhas sem esmalte no moreno da pele. Eu queria mais que ela me pegasse aquela hora e que a cola grudasse mais pra sempre.
Mas pra quê tantos seios?
Gosto quando ela escreve na lousa. Ela anda rebolando rebolando rebolando... Mesmo se caminha pra dar bronca.
Quando ela aparece, todo mundo fica em silêncio. E querendo ouvir e aprender. Ela é tão mas tão mãe, e tão linda mãe, que, na minha ausência, ela vira pai também. E eu até tô aprendo a ser pai, crê? Aprendendo, a duríssimas penas, a deixar de apenas amar, apenas sorrir, apenas chorar, apenas ser amigo, aprendendo a ser pai.
Ela fala o tempo inteirinho, mas não consigo ouvir metade do que ela diz. É porque ela diz muito mais fazendo que falando. Fazendo. Aí eu ouço. Com toda a atenção. Ouço ela se cansando e superando o cansaço, ouço ela rindo, ouço ela fazendo o que ninguém mais faz. Nem ouve? Nem houve?
Quando ela cruza os braços, sobram sobre os braços os tantos seios de quem já amamentou, enquanto a barriga de quem já engravidou por 18 meses sobra sob os braços. Eu queria morder ela todinha. Devorar ela. Até não sobrar sombra. Fazer ninho pra ela na minha cama.
Queria cozinhar pra ela, lavar sua calcinha e seu sutiã. Ser a esposa dela. Queria fazer blusa de lã, pra esquentar ela naquela sala fria. Bordar seu sutiã. Medir o tamanho do sutiã. Calcular o tamanho. Espremer tudo aquilo numa fórmula.

(Gu)