Nascem e soam. Como não antes houvera som. O som original. Se eles soubessem o que causam... mas há que se esquecer as reticências. São vaguidão e o meu mundo é sólido. Optas-te por não fazer parte dele. Ou melhor: deixas-te de optar. Fosse meu homem e eu te faria minha mulher. Tudo é tão complexo aqui pra ti e pra mim. Parecemos duas mulheres em meio a fluxos de pensamentos em livres associações que não se prendem em lugar algum. Como você a mim. Porque assim se n’algum lugar sei que ainda reside uma parte que, o poeta quer, é ninguém e todo mundo?
Abre-te pra mim, deixa que eu te devore como a uma mulher. Como uma mulher. Porque eu sou mulher demais. Não tentes, antes, saber de si. Grite, me agarre as pernas e me deixe te possuir, te ter pra mim, dentro de mim. Seria tão mais fácil assim. E não queres... eu podia te dar a mão, puxar de volta. Mas não houve nenhuma tentativa. Não foste homem. E eu sou mulher demais. Preciso.
Demorei a nascer. Não tinha pretensão de ser tua. Ainda há qualquer coisa que me some às vezes. Por vezes vacilo. Quase um segundo e vale uma vida. A minha vida. Mas isso não importa. Quero-te no meu pescoço. Faça-me esquecer da vida. Até de ti. Preciso ir. Me deixe te levar onde um futuro nos saberá? Me deixe saber-te meu. Seja meu.
Não há possibilidade de um encontro. É impossível, como eu sou. Conhecer-se é ter o mundo nas mãos. E eu conheço você. Sei o quanto domina, o quanto se apodera de espaços, de ausências. A solidez do seu mundo só me traz um silêncio habilitado, como uma pedra, a romper-me as têmporas. A romper diques. A deixar as águas me invadirem. E liquefazerem os meus olhos diante do vazio eterno da eterna presença sua. Sim, eu sou assim. Na solidão. Choro um pouco mais ao constatar esse fato. E de fato choro. Mas num momento seguinte lembro da minha posição. Saio à rua e me livro de mim. Vou à padaria. Compro cigarros. Passo em frente a uma boate que, sei, só abrirá a noite. Na esperança de me lembrar do meu eu original. Só instintos. Assim me sinto mais homem.
Caio em mim antes mesmo de adentrar a minha casa. Quando sei que uma moral que eu não tenho me impede de pagar o amor de uma mulher. Ou mesmo de me apoderar do seu corpo num espasmo, sem pedir permissão. Você sabe mais que ninguém que eu poderia, mas não me tem. São pedaços, inteiros enquanto pedaços, que me fazem ver o seu rosto. E não encontro reflexo desses pedaços neles. Não há espelho, não há simetria. Tampouco proporção. Essa desesperança de encontro me faz mais homem. E eu volto pra te ver. Esqueço tudo um pouco e adentro a minha cama.
Sonhos? Sonhos sonhos são. Mas se você não me ama, porque assim? Porque não há aí a faísca que afogo, que abafo e me ferve a fogo baixo. Como eu posso romper esses elos que nos são anteriores? Quero sair daqui, ser salvo não é uma opção. Não preciso de Virgílios ou Beatrizes. Um Sancho me teria mais cuidado. Saber-se-ia mais importante. Não cabe aqui um contorno a essa situação. Sim, eu sou homem e, portanto, impossivelmente eu diria: eu amo você. Eu sou impossível. Não me realizo. Se há portas a serem abertas, quero ter a chave e não ter que pedir ao zelador para abri-las para mim. Não cabe a você essa tarefa. Na manhã seguinte a raiva devora o meu café. Mastigo tudo com força, lhe tendo quase ódio. Saio decidido. Mas sei que no caminho me aguarda o silêncio do seu sorriso quase maligno.
Se não me faltasse esse sentimento. São só palavras no fim, não são? Ah, os poetas. Não sou poeta, nem poetisa. Sou mulher. Mais que nunca. Sou poesia.
A poesia não se apreende. Não se prende. Não se nomeia. Não sou poeta. Sou um amante.
(biel)
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domingo, 19 de abril de 2009
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
madrinha
Acabou o livro, levantou-se, ainda lembrou-se de confirmar o nome da autora daquele romance tão perturbador: Ana Paula. Algo de místico rondava aquele nome. Ana Paula, repetiu como se confirmasse o nome da filha. Mas sem sobrenome carecia de identidade, não era um Joyce, ou um Goethe, tampouco um Shakespeare. Mas lembrou-se imediatamente de um outro nome. Homero. Onde tudo começa e pra onde tudo volta. Pareceu mesmo, aquela sua heroína, um pouco com Odisseu. Sua busca visava um outro lar, mas a mesma esposa. Talvez num mundo possível e tão verossímil quanto o de Odisseu.
Lembrou-se de ir a padaria comprar o pão para o café do dia que amanhecia. Saberia do gosto de mãe do macarrão de domingo. Nos elementos que se dispunham sobre os armários e móveis, alguns porta retratos, souvenires, e o que devia ser um artefato feminino sobrando ali por razão desconhecida, sonhavam uma áurea doce e de poderes desconhecidos até então. Tão poucas vezes soubera o valor desse amor de família que por vezes lhe pareceu um amor obrigado. E tanto quanto estas vezes teria lido livro tão perturbador como o de Ana Paula. (Abriu o portão) percebeu tal pensamento e esqueceu-se que havia esquecido o livro aberto. Mas fora proposital. Sentia conhecer aquele livro, sentia sonhá-lo, o sentia sonhar.
As pessoas logo começariam a chegar. Não sabia ao certo onde haviam ido. A casa foi tomada por ele por desculpa de uma noite, mas o tomou com sorriso que o recebeu. Dormira e agora buscava o pão para si próprio, mas sabia que iria encontrar companhia, talvez logo quando chegasse com o pão, que parecia uma tarefa fácil, mas lenta como a mãe que olha o filho dormir. Cada detalhe lhe lambia a retina, cada flor a se abrir nas árvores era ouvida. Se não fosse já um pouco tarde poderia dedicar-se mais a essa sensação de leveza de valsa cotidiana tão pouco vivida.
Passou sem dar ainda atenção ao cão que lhe lambia a mão livre da sacola. Preparou o café que não poderia deixar de ser doce. Comeu e esperou que chegassem. Chegaram. Olharam. Cozinharam. Conversaram. E era tudo tão bom. Tudo tão doce. Como era doce Penélope. Em cada olhar parecia caber um amor. Um amor só possível quando a mágoa toca o coração de cada um. Com alguma exceção na irmã mais nova e na afilhada. No beijo. Nas palavras enroladas da criança que aponta e que se sabe amada pra um sorriso de agradecer luzir o dia e arrebentar com um coraçãozinho já em fio.
Ela talvez não tivesse o direito de fazer assim. Mas ela fez e pronto. Ele agora espera sem saber se o fazia em vão. Mas por algum motivo, sem aquilo ele não teria isto. A criança ainda o olhava e tinha vergonha de falar francês. Mas a madrinha sempre pronta a ajudar aliviava a pressão e soltava uma gargalhada que assustava. Chegava mesmo a abalar a estrutura da casa, pensou ter ouvido, inclusive, uma rachadura fazendo-se na parede, como ouvira antes a flor, devido àquela gargalhada. E pensou: será que talvez não fora pelo olhar dessa gargalhada que as flores expunham-se pelas ruas? Ou antes teria sido apenas a inveja da mãe natureza que precisou criar sete maravilhas para descobrir que não superaria a criação do pai, pois a oitava saiu exatamente como a madrinha, que não era, mas tem todo o direito de ser, fada.
(biel)
Lembrou-se de ir a padaria comprar o pão para o café do dia que amanhecia. Saberia do gosto de mãe do macarrão de domingo. Nos elementos que se dispunham sobre os armários e móveis, alguns porta retratos, souvenires, e o que devia ser um artefato feminino sobrando ali por razão desconhecida, sonhavam uma áurea doce e de poderes desconhecidos até então. Tão poucas vezes soubera o valor desse amor de família que por vezes lhe pareceu um amor obrigado. E tanto quanto estas vezes teria lido livro tão perturbador como o de Ana Paula. (Abriu o portão) percebeu tal pensamento e esqueceu-se que havia esquecido o livro aberto. Mas fora proposital. Sentia conhecer aquele livro, sentia sonhá-lo, o sentia sonhar.
As pessoas logo começariam a chegar. Não sabia ao certo onde haviam ido. A casa foi tomada por ele por desculpa de uma noite, mas o tomou com sorriso que o recebeu. Dormira e agora buscava o pão para si próprio, mas sabia que iria encontrar companhia, talvez logo quando chegasse com o pão, que parecia uma tarefa fácil, mas lenta como a mãe que olha o filho dormir. Cada detalhe lhe lambia a retina, cada flor a se abrir nas árvores era ouvida. Se não fosse já um pouco tarde poderia dedicar-se mais a essa sensação de leveza de valsa cotidiana tão pouco vivida.
Passou sem dar ainda atenção ao cão que lhe lambia a mão livre da sacola. Preparou o café que não poderia deixar de ser doce. Comeu e esperou que chegassem. Chegaram. Olharam. Cozinharam. Conversaram. E era tudo tão bom. Tudo tão doce. Como era doce Penélope. Em cada olhar parecia caber um amor. Um amor só possível quando a mágoa toca o coração de cada um. Com alguma exceção na irmã mais nova e na afilhada. No beijo. Nas palavras enroladas da criança que aponta e que se sabe amada pra um sorriso de agradecer luzir o dia e arrebentar com um coraçãozinho já em fio.
Ela talvez não tivesse o direito de fazer assim. Mas ela fez e pronto. Ele agora espera sem saber se o fazia em vão. Mas por algum motivo, sem aquilo ele não teria isto. A criança ainda o olhava e tinha vergonha de falar francês. Mas a madrinha sempre pronta a ajudar aliviava a pressão e soltava uma gargalhada que assustava. Chegava mesmo a abalar a estrutura da casa, pensou ter ouvido, inclusive, uma rachadura fazendo-se na parede, como ouvira antes a flor, devido àquela gargalhada. E pensou: será que talvez não fora pelo olhar dessa gargalhada que as flores expunham-se pelas ruas? Ou antes teria sido apenas a inveja da mãe natureza que precisou criar sete maravilhas para descobrir que não superaria a criação do pai, pois a oitava saiu exatamente como a madrinha, que não era, mas tem todo o direito de ser, fada.
(biel)
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
uma gota a mais
Sei
Tão bem quanto você
Sem nem te querer
Que se explode de paixão.
Aquelas unhas
Negras ainda marcam minhas costas
Nuas sob o sol da tua lembrança
Sem nem te querer
E ela foi demais.
Num presente impossível
Sem nem te querer
Ela seria sempre demais.
Delícia, loucura e prazer
No meu mar
No meu mar AZUL
No meu altar
Na gênese do mal
O infinito impera
Mas o teu desenho
Teve de contornar
E ele te quis.
(biel)
Tão bem quanto você
Sem nem te querer
Que se explode de paixão.
Aquelas unhas
Negras ainda marcam minhas costas
Nuas sob o sol da tua lembrança
Sem nem te querer
E ela foi demais.
Num presente impossível
Sem nem te querer
Ela seria sempre demais.
Delícia, loucura e prazer
No meu mar
No meu mar AZUL
No meu altar
Na gênese do mal
O infinito impera
Mas o teu desenho
Teve de contornar
E ele te quis.
(biel)
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
todo rio segue pro mar
Eu tenho que ir como quem parte um prato, mas não posso. Tenho que ir, mas não quero. O amor fica pra trás como ficam mais adiante as águas turvas do rio turbulento e esmorenado pelo barro deslizante desencarnado da pedra. Ainda me souberam umas despedidas, mas não a desejada.
E o rio me levou.
No desaguar do rio manso, mas persistente, suaram as lágrimas o sal do mar instável como meu rosto no espelho. Eu buscava amor e te encontrei sem saber que achara. Foi então passeando na lagoa que se liquefez um sorriso seu, em águas musgolentas refletoras de uma lua sem tamanho ou forma diante da chuva que caía num mendigo sob o céu descoberto.
Tudo ganhara nova significação. Eu e água. Eu e noiva. Uma pavão fêmea que buscava algo, mas que jamais poderia ter. Em mim não sobrava ave, nem no canto, nem no vôo. Mas como não poderia deixar de ser, houve verde e esperança.
No calar do dia, como claro que não podia deixar de ser ao som dos trovões e da chuva tonta que esbarrava para morrer na janela dos meus sonhos, foi que um segundo ou menos, ou quase isso, as cobras me teriam inveja diante do envolver-se em doce veneno que fora teu hálito penetrando minhas narinas e conjugando a respiração num algo que precipitadamente pensei antes fosse um beijo.
E fora ali, uma nuvem no céu escuro da noite refletindo a luz colorida de alguma boate, que, se perdi algo antes do meu nascimento e passei a vida toda procurando, eu achei. Depois do espanto dos seus olhos, o desvencilhar-se do meu corpo como um quase nojo se não fora antes mais que espanto, não sobrara muitas opções. As ruas estreitaram-se, as portas se fecharam, os barcos naufragaram, mas o meu rio não secou. Mergulhei como quem queria pedras nos bolsos, mas me desnudei antes.
Na noite virada o ano começa diferente. O ano não, mas um ciclo onde a estação já não é mais a dela. Onde os ventos já não são o halo que eu aspirava diante da hipótese da companhia. Aqui e agora não nasço. Também não posso (morrer ainda). Não enquanto ainda for viva essa espera. Eu: um pobre pato feio afogado na lagoa, aquela mesma da lua dos seus olhos a sorrir em plena chuva noturna. Num desespero derradeiro que se formou desde a minha partida precisa busco um retorno no resgate do apartado coração agora pertencente à selva dos dias sem fim de ilhas remotas cravadas em anormais arranha-céus onde não chove mais. E um dia ainda há de atravessar minha janela, aberta desta vez, um outro rouxinol a vir se perder entre meus espinhos.
(biel)
E o rio me levou.
No desaguar do rio manso, mas persistente, suaram as lágrimas o sal do mar instável como meu rosto no espelho. Eu buscava amor e te encontrei sem saber que achara. Foi então passeando na lagoa que se liquefez um sorriso seu, em águas musgolentas refletoras de uma lua sem tamanho ou forma diante da chuva que caía num mendigo sob o céu descoberto.
Tudo ganhara nova significação. Eu e água. Eu e noiva. Uma pavão fêmea que buscava algo, mas que jamais poderia ter. Em mim não sobrava ave, nem no canto, nem no vôo. Mas como não poderia deixar de ser, houve verde e esperança.
No calar do dia, como claro que não podia deixar de ser ao som dos trovões e da chuva tonta que esbarrava para morrer na janela dos meus sonhos, foi que um segundo ou menos, ou quase isso, as cobras me teriam inveja diante do envolver-se em doce veneno que fora teu hálito penetrando minhas narinas e conjugando a respiração num algo que precipitadamente pensei antes fosse um beijo.
E fora ali, uma nuvem no céu escuro da noite refletindo a luz colorida de alguma boate, que, se perdi algo antes do meu nascimento e passei a vida toda procurando, eu achei. Depois do espanto dos seus olhos, o desvencilhar-se do meu corpo como um quase nojo se não fora antes mais que espanto, não sobrara muitas opções. As ruas estreitaram-se, as portas se fecharam, os barcos naufragaram, mas o meu rio não secou. Mergulhei como quem queria pedras nos bolsos, mas me desnudei antes.
Na noite virada o ano começa diferente. O ano não, mas um ciclo onde a estação já não é mais a dela. Onde os ventos já não são o halo que eu aspirava diante da hipótese da companhia. Aqui e agora não nasço. Também não posso (morrer ainda). Não enquanto ainda for viva essa espera. Eu: um pobre pato feio afogado na lagoa, aquela mesma da lua dos seus olhos a sorrir em plena chuva noturna. Num desespero derradeiro que se formou desde a minha partida precisa busco um retorno no resgate do apartado coração agora pertencente à selva dos dias sem fim de ilhas remotas cravadas em anormais arranha-céus onde não chove mais. E um dia ainda há de atravessar minha janela, aberta desta vez, um outro rouxinol a vir se perder entre meus espinhos.
(biel)
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