E não me tire esse copo aqui da mesa! Desta dor, quero até o último gole, quero o copo inteiro, quero estilhaçar o copo nos dentes na língua no céu da boca na amígdala no pomo de adão, quero-a caco a caco em sorvos lentos, sedentos, avarentos.
(Gustavo de Paula)
domingo, 20 de novembro de 2011
Coco I
Pois a maçã preguntô
P’ras uvinha lá do cacho:
Qual o exílio da beleza?
Respondero: A Paula, eu acho.
- Mas, sô, não era o Curíntia?
Nem um milagre absurdo?
Nem chuva de margarida?
Nem o céu de Cordisburgo?
- Será que nem cachoêra?
Nem barquim de jornar?
Será que sua beleza
É maior que um enxovar?
- Maior que o mar e que o céu?
E o que o tempo na prisão?
Que meus anos sem te ver?
E que a imaginação?
- Mas será assim mesmo
Tão maior sua beleza
Que o coco do coqueiro?
E que o bão da sobremesa?
- Mais maior que a internet?
E que a barba do Mamede?
E que aquele dicionário
Sem fim do Caldas Aulete?
- E mais ainda que a Bíblia?
Que a coragem do Biér?
Que o coração do Lelê?
Que o giro num carrussér?
- Que a população da China?
Que o gado do boiadêro?
Que a peleja dum cristão?
Que a tristeza dum vaquêro?
- Mas será assim mesmo
Tão maior sua beleza
Que o coco do do Pandêro?
E que toda a natureza?
Pois as uva confirmaro,
E a maçã desconfiô.
Mas quando te vis-viu...
Virou em maçã-do-amor!
(Gustavo de Paula)
P’ras uvinha lá do cacho:
Qual o exílio da beleza?
Respondero: A Paula, eu acho.
- Mas, sô, não era o Curíntia?
Nem um milagre absurdo?
Nem chuva de margarida?
Nem o céu de Cordisburgo?
- Será que nem cachoêra?
Nem barquim de jornar?
Será que sua beleza
É maior que um enxovar?
- Maior que o mar e que o céu?
E o que o tempo na prisão?
Que meus anos sem te ver?
E que a imaginação?
- Mas será assim mesmo
Tão maior sua beleza
Que o coco do coqueiro?
E que o bão da sobremesa?
- Mais maior que a internet?
E que a barba do Mamede?
E que aquele dicionário
Sem fim do Caldas Aulete?
- E mais ainda que a Bíblia?
Que a coragem do Biér?
Que o coração do Lelê?
Que o giro num carrussér?
- Que a população da China?
Que o gado do boiadêro?
Que a peleja dum cristão?
Que a tristeza dum vaquêro?
- Mas será assim mesmo
Tão maior sua beleza
Que o coco do do Pandêro?
E que toda a natureza?
Pois as uva confirmaro,
E a maçã desconfiô.
Mas quando te vis-viu...
Virou em maçã-do-amor!
(Gustavo de Paula)
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Soneto da obscenidade I
Já decorei, de cada aluno, o nome.
Corrigi seus cadernos e apostilas.
Descobri com quem moram e o que comem.
(Amo as suas realidades descobri-las!)
No diário, anoto toda vez que somem –
Sinto deles a falta em sala ou em fila –
Tenho-os no e-mail e essas coisas de jovem.
Leciono até na lan-house da vila.
Estimulo o prazer pela leitura.
Deleite na labuta e na exaustão.
Ensino: o gozo mais lascivo é o estudo.
Amo os alunos e a licenciatura!
- Mas qual motivo pra reprovação?
Entre quatro paredes, vale tudo.
(Pau no Gu)
Corrigi seus cadernos e apostilas.
Descobri com quem moram e o que comem.
(Amo as suas realidades descobri-las!)
No diário, anoto toda vez que somem –
Sinto deles a falta em sala ou em fila –
Tenho-os no e-mail e essas coisas de jovem.
Leciono até na lan-house da vila.
Estimulo o prazer pela leitura.
Deleite na labuta e na exaustão.
Ensino: o gozo mais lascivo é o estudo.
Amo os alunos e a licenciatura!
- Mas qual motivo pra reprovação?
Entre quatro paredes, vale tudo.
(Pau no Gu)
sábado, 12 de novembro de 2011
Coreographia II
A José Silvério
I
Pai do Gol, esposo da Bola,
Coreographo na vitrola,
Asceta do verbo e do rádio,
Aedo das liças no estádio,
Irradiador ou irradiante?
Ou radioativo reboante?
Raio: a luz que emana de um foco
E se alastra em nós em voz e fogo.
II
Se a bola rola, vibra o canto;
Gládio em campo, voz de comando.
Se de trivela, arqueia o entoo;
E se chapela, alça-o em voo.
Bicicleta, manobra-a em dós;
Defende a meta, fecha a voz.
Cobra o pênalti, tom suspeito...
Se estufa a rede, estufa o peito!
III
E que golaço! E que golaço!
De cabeça, voleio ou braço.
Com artilheiros, tanto gol,
Mas foi você quem os marcou.
Em uma só voz, nossa vista
Mais corada, e atenta, e imprevista.
Em uma só voz, nosso grito
Intensificado: negrito.
IV
Pra cantar, mister é escoltar
Rodopios e curvas no ar.
– E quem me ensinou foi você,
Ainda antes de Mallarmé,
E de Orides, e de Foucault,
Eu menino, em colo do Vô –
Pra cantar: sílabas na cola
Da dança insurgente da Bola.
(Gustavo de Paula)
I
Pai do Gol, esposo da Bola,
Coreographo na vitrola,
Asceta do verbo e do rádio,
Aedo das liças no estádio,
Irradiador ou irradiante?
Ou radioativo reboante?
Raio: a luz que emana de um foco
E se alastra em nós em voz e fogo.
II
Se a bola rola, vibra o canto;
Gládio em campo, voz de comando.
Se de trivela, arqueia o entoo;
E se chapela, alça-o em voo.
Bicicleta, manobra-a em dós;
Defende a meta, fecha a voz.
Cobra o pênalti, tom suspeito...
Se estufa a rede, estufa o peito!
III
E que golaço! E que golaço!
De cabeça, voleio ou braço.
Com artilheiros, tanto gol,
Mas foi você quem os marcou.
Em uma só voz, nossa vista
Mais corada, e atenta, e imprevista.
Em uma só voz, nosso grito
Intensificado: negrito.
IV
Pra cantar, mister é escoltar
Rodopios e curvas no ar.
– E quem me ensinou foi você,
Ainda antes de Mallarmé,
E de Orides, e de Foucault,
Eu menino, em colo do Vô –
Pra cantar: sílabas na cola
Da dança insurgente da Bola.
(Gustavo de Paula)
domingo, 6 de novembro de 2011
Pas marché I
Assombrado, General Flores descobriu que, dali em diante, seus passos pelas ruas jamais poderiam ser os mesmos de tantos anos e de tanto uso. Notou que, se tropeçasse, faria tremer as raízes centenárias das árvores do bairro, os tanques de guerra da cidade, os tratados comercias do país.
As donzelas, enfeitiçadas, sentiam o movimento brusco das coxas monumentais, transtornando a direção dos ventos, erguer cada prega de suas saias, desde a cauda, cada sobretúnica, cada corpete.
Os senhores de tatuagens e barbas ruivas, muito viris e honrados, sim senhor, fugaz não se acomodavam a seus apetites.
Aos anciãos, causava repúdio a vitalidade daqueles passos. Aos miúdos, temor. Não dormiriam aquela noite: alguns, apavorados com a possiblidade dos passos alcançarem seus quartos; outros, receosos de que não deparassem outra vez, em vida, com passos tais que pudessem seguir até onde fossem.
O estouro da manada refrearia sua explosão alucinada, caso se pusesse em seu caminho, naquele dia.
Nuvens teriam anegralhado o céu para a tempestade, caso se atrevessem a permanecer sobre a certeza intolerável daqueles passos.
As folhas pesadas do outono se precipitavam desejando mais que tudo serem trituradas por aqueles pés indiferentes.
Passos sem pressa nem preguiça:
Nem em falso nem passo a passo.
Nem passo o ponto nem ao passo que.
Nem básico nem avançado.
Nem paço nem compasso.
Nem Passo Fundo nem de rosca.
Nem escoteiro nem escuro.
Nem andante nem allegro.
Nem ida à labuta nem volta ao lar.
Nem marcha nem ballet.
Passos, sim, de quem fez, do mundo, o próprio quarto.
Porque fizera, de alguns dois olhos castanhos bem escuros, o abajur.
(Gustavo de Paula)
As donzelas, enfeitiçadas, sentiam o movimento brusco das coxas monumentais, transtornando a direção dos ventos, erguer cada prega de suas saias, desde a cauda, cada sobretúnica, cada corpete.
Os senhores de tatuagens e barbas ruivas, muito viris e honrados, sim senhor, fugaz não se acomodavam a seus apetites.
Aos anciãos, causava repúdio a vitalidade daqueles passos. Aos miúdos, temor. Não dormiriam aquela noite: alguns, apavorados com a possiblidade dos passos alcançarem seus quartos; outros, receosos de que não deparassem outra vez, em vida, com passos tais que pudessem seguir até onde fossem.
O estouro da manada refrearia sua explosão alucinada, caso se pusesse em seu caminho, naquele dia.
Nuvens teriam anegralhado o céu para a tempestade, caso se atrevessem a permanecer sobre a certeza intolerável daqueles passos.
As folhas pesadas do outono se precipitavam desejando mais que tudo serem trituradas por aqueles pés indiferentes.
Passos sem pressa nem preguiça:
Nem em falso nem passo a passo.
Nem passo o ponto nem ao passo que.
Nem básico nem avançado.
Nem paço nem compasso.
Nem Passo Fundo nem de rosca.
Nem escoteiro nem escuro.
Nem andante nem allegro.
Nem ida à labuta nem volta ao lar.
Nem marcha nem ballet.
Passos, sim, de quem fez, do mundo, o próprio quarto.
Porque fizera, de alguns dois olhos castanhos bem escuros, o abajur.
(Gustavo de Paula)
terça-feira, 18 de outubro de 2011
da relva
olho a jabuticaba
e é como se me
olhasse de volta
da casca reluzente
súbito, empalideço
coração dispara
sim, ela me olha
e quer me devorar
(biel)
e é como se me
olhasse de volta
da casca reluzente
súbito, empalideço
coração dispara
sim, ela me olha
e quer me devorar
(biel)
domingo, 16 de outubro de 2011
Soneto das orientações curriculares I
Toda manhã, tão fresca e pontual,
É servida, na escola – hm... saliva! –,
A bosta do prefeito. Sem igual:
Mais cheirosa, e gostosa, e nutritiva.
É obrigatória, a refeição, com sal;
Mas, quando chega, quem não grita “Viva!”?
Queixas, apenas no atraso da tal.
Afinal, se o governo no-la priva,
Como ensinar pro aluno assunto algum?
Daí uma alternativa incomum,
Nos assaltos de uma febre terçã:
Se convertêssemo-nos ao Islã,
Todos anos, no mês do Ramadã,
Faríamos jejum, jejum, jejum...
(Pau no Gu)
É servida, na escola – hm... saliva! –,
A bosta do prefeito. Sem igual:
Mais cheirosa, e gostosa, e nutritiva.
É obrigatória, a refeição, com sal;
Mas, quando chega, quem não grita “Viva!”?
Queixas, apenas no atraso da tal.
Afinal, se o governo no-la priva,
Como ensinar pro aluno assunto algum?
Daí uma alternativa incomum,
Nos assaltos de uma febre terçã:
Se convertêssemo-nos ao Islã,
Todos anos, no mês do Ramadã,
Faríamos jejum, jejum, jejum...
(Pau no Gu)
domingo, 9 de outubro de 2011
Soneto do totalitarismo I
Toda. Claro. Sob hipótese alguma.
Nunca. Conforme. Bem. De todo modo.
Com sorte. Era uma vez. Além. Nenhuma.
Todos. Em condições tais que. Ou. Logo.
Concordo. Não. Jamais. Nenhum. Contudo.
Em tempo algum. Decerto. Logo mais.
Sempre. Por conseguinte. Mas. Sim. Tudo.
Sem cessar. Frequentemente. Sem mais.
Segundo. Em todo caso. Vê. Por isso.
Todo tempo. Em virtude de. Porquanto.
Senão vejamos. Bem. Por falar nisso.
Isso. Sem dúvida. Por que. Contanto.
Ora. Às vezes. Em qualquer ocasião.
Afinal. Em razão de. Exceção.
(Pau no Gu)
Nunca. Conforme. Bem. De todo modo.
Com sorte. Era uma vez. Além. Nenhuma.
Todos. Em condições tais que. Ou. Logo.
Concordo. Não. Jamais. Nenhum. Contudo.
Em tempo algum. Decerto. Logo mais.
Sempre. Por conseguinte. Mas. Sim. Tudo.
Sem cessar. Frequentemente. Sem mais.
Segundo. Em todo caso. Vê. Por isso.
Todo tempo. Em virtude de. Porquanto.
Senão vejamos. Bem. Por falar nisso.
Isso. Sem dúvida. Por que. Contanto.
Ora. Às vezes. Em qualquer ocasião.
Afinal. Em razão de. Exceção.
(Pau no Gu)
domingo, 2 de outubro de 2011
Soneto da ação comunicativa I
O professor agarrado a seu giz,
E os guris explodindo seus hormônios;
Firme no giz espesso, mãos febris,
E os guris depredando o patrimônio;
Risca cada letrinha, mãos sutis,
E, aos murros, os guris, com mil demônios;
Jardina toda letrinha de lis,
Rega-as de sangue, os guris, quais lacônios.
Soa o alarme de incêndio na escola.
Filho da puta! Abre a porta, veado!
Antes, em Plínio, o Jovem, um floreado.
Rombo e berro: emancipação carola.
Cuidando o fogo achar Plínio frajola,
Professor morre junto ao namorado.
(Pau no Gu)
E os guris explodindo seus hormônios;
Firme no giz espesso, mãos febris,
E os guris depredando o patrimônio;
Risca cada letrinha, mãos sutis,
E, aos murros, os guris, com mil demônios;
Jardina toda letrinha de lis,
Rega-as de sangue, os guris, quais lacônios.
Soa o alarme de incêndio na escola.
Filho da puta! Abre a porta, veado!
Antes, em Plínio, o Jovem, um floreado.
Rombo e berro: emancipação carola.
Cuidando o fogo achar Plínio frajola,
Professor morre junto ao namorado.
(Pau no Gu)
domingo, 25 de setembro de 2011
Soneto da diversidade II
Linfogranuloma venéreo? Sífilis?
Herpes simples genital? Granuloma
inguinal? Infecção por trichomonas?
AIDS? Hepatite B? Candidíase?
Gonorreia? Infecção por clamídia?
Molusco contagioso? Condiloma
acuminado? Fogo na redoma?
Pediculose do púbis? Na mídia?
Não, não!... Diversidade de vacina:
De varicela, de poliomielite,
De febre amarela, de meningite,
De febre tifóide, de difteria,
De rubéola e até de preguicite!
Primeiro mundo filmando: sorria.
(Pau no Gu)
Herpes simples genital? Granuloma
inguinal? Infecção por trichomonas?
AIDS? Hepatite B? Candidíase?
Gonorreia? Infecção por clamídia?
Molusco contagioso? Condiloma
acuminado? Fogo na redoma?
Pediculose do púbis? Na mídia?
Não, não!... Diversidade de vacina:
De varicela, de poliomielite,
De febre amarela, de meningite,
De febre tifóide, de difteria,
De rubéola e até de preguicite!
Primeiro mundo filmando: sorria.
(Pau no Gu)
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