E eram tempos...
de carinho
quando o que estava em volta
não podia ser
se não era violência
era onde a amizade.
Devagar se descobria
veneno doce esse um amor
chamado
e (ainda!) era onde
o antídoto.
Suave
o olhar desliza
do branco do papel
no direito ombro
ainda o antídoto
no canhoto
ainda uma dose
matinal
do suicídio.
(biel)
sexta-feira, 3 de abril de 2009
segunda-feira, 9 de março de 2009
lusco fusco
deito-me no calor no teu corpo
no lugar onde estavas há pouco
farejo no ar ainda algum perfume
e é como se isso quase fosse bom.
(biel)
no lugar onde estavas há pouco
farejo no ar ainda algum perfume
e é como se isso quase fosse bom.
(biel)
terça-feira, 3 de março de 2009
excerto de estória
Sair do inicial desespero inicia um ânimo novo. Era como se lhe soltassem as asas, encarnadas de sangue e marcas a ferro quente. Ainda havia dor, ainda não poderia voar por tempos, mas tinha já as asas livres. Embora não reparasse na corrente sinuosa que escorria de seu tornozelo sabia ainda estar longe de poder voar, não sabia estar a uma distância quase impossível. Como quisera sonhar com esse dia, mas antes que nascesse o dia o sonho e o sono é que eram impossíveis. No caminho para o trabalho durante aquela estada longínqua de quem lhe pressionava o peito havia mais peso. Eram tantas as pessoas que iam com ele, ao lado dele, lhe respiravam o ar. Ainda sim não o eram. Nem sequer eram a ela. Tampouco podiam sê-lo o, antes, sê-la. Mesmo que duvidasse tanto de si mesmo ainda tinha essa certeza. E essa era a sua salvação. A salvação de um abismo no qual se jogara sem ter o conhecimento de suas asas presas. A olhar o mendigo ao lado torcendo-se de cólicas por provar uma coca-cola com o estômago vazio e cheio de vermes. E nesse seu suicídio, tão impetuoso e idiota quanto nos fazia rir o nosso tão amado cavalheiro da triste figura. Um idiota completo e impetuoso. Combinação magistral para tragédias ou triunfos, mas não digna de pequenos atos como o dos suicidas. Jamais saltaria desconhecendo a envergadura de suas próprias asas, porém não verificar a sabotagem q se aninhara em seus braços e inscrevera-se tal qual tatuagem em braços de velhos marinheiros conhecedores dos mares do esquecimento para simplesmente dar-lhe o nó que o faria refém em queda livre. Ao olhar pra trás buscando a compreensão naquela figura q já tinha invadido suas narinas com o perfume cintilante das lanternas dos afogados e suas vidas não cumpridas vira somente a distância aumentando e a luminosidade daquele encanto se abrir em meio aos lábios envenenados de desejo.Quando já desacreditado então da possibilidade de regresso ao vôo, ou ao menos da planagem se lhe escapam os nós atadores das asas maltratadas. Há um vislumbre de despertar, os olhos entreabrem, é uma sensação tão maravilhosa abrir os olhos e poder ver, de novo, o veloz amanhecer.
(biel)
(biel)
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009
do escuro
é
na pedra que
se
amolecer
a onda leva
é
na garganta que
se
não resolver
a palavra seca
é
na noite que
se
sem se saber
a palavra leva
à rebentação leve
de palavras do porvir
e
os barcos cintilam à marola selvagem da noite a romper diques imensos em meu coração
(biel)
na pedra que
se
amolecer
a onda leva
é
na garganta que
se
não resolver
a palavra seca
é
na noite que
se
sem se saber
a palavra leva
à rebentação leve
de palavras do porvir
e
os barcos cintilam à marola selvagem da noite a romper diques imensos em meu coração
(biel)
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Excerto de relatório de estágio - Análise documental: uma carta, uma carta de amor
Pois assim é, Bem-Amada... nos arrancaram primeiro o lar, depois os filhos e, finalmente, nos separaram. E a dor, agora, consome até a derradeira veia...
Não te entristeças, contudo, Bem-Amada, que há muito principiara teu sofrimento e, a despeito de ter ele também talhado cada pétala morena do teu corpo, já é hora dos sorrisos virem abrir a flor dos seus lábios, onde orvalham o mel e o alfabeto.
Não te entristeças, que a tristeza eu a bebo toda. Tens marido, filhas, 2º ano, CEUs, escola em Cotia, eu tenho o cipó, na casa da Vó, eu tenho a poesia; e a tristeza, portanto, roubo-a inteira dos teus olhos e não reparto. Segue com tuas sandálias de felicidade. Segue, que, se seguires, nem a morte me roubará de nós.
Não te entristeças, morena bem amada! Não te entristeças, pois que minhas mãos, estas que ora te escrevem, ainda estão junto às tuas, sujas de cola. E ainda confeccionam cartazes de calendários e parlendas. Ainda repassam os mesmos exercícios de matemática e as mesmas palavras, com A, com B, com C, com D, com D, com D... Estas mãos ainda tremem e suam frio antes de sonharem acarinhar, brevemente, mais uma vez, teus cabelos sem luar, teus ombros, antes de sonharem tombar no precipício calicino da tua cintura. Estas mãos minhas não se desvencilhariam da cola tenaz das tuas mãos, a não ser quisesses muito. E olha, pensando bem, possivelmente nem com tanto querer assim.
Não te entristeças jamais... já que, afinal, quem faz os calendários ainda sou eu, todo mês. Ainda escrevendo de azul o que era para ser vermelho e de preto, o que era para ser azul e, de vermelho, o que era para ser azul e preto. E já que, no fundo, sempre foi e continuará sendo, para onde apontam os teus seios, que eu cego seguirei.
(Gu)
Não te entristeças, contudo, Bem-Amada, que há muito principiara teu sofrimento e, a despeito de ter ele também talhado cada pétala morena do teu corpo, já é hora dos sorrisos virem abrir a flor dos seus lábios, onde orvalham o mel e o alfabeto.
Não te entristeças, que a tristeza eu a bebo toda. Tens marido, filhas, 2º ano, CEUs, escola em Cotia, eu tenho o cipó, na casa da Vó, eu tenho a poesia; e a tristeza, portanto, roubo-a inteira dos teus olhos e não reparto. Segue com tuas sandálias de felicidade. Segue, que, se seguires, nem a morte me roubará de nós.
Não te entristeças, morena bem amada! Não te entristeças, pois que minhas mãos, estas que ora te escrevem, ainda estão junto às tuas, sujas de cola. E ainda confeccionam cartazes de calendários e parlendas. Ainda repassam os mesmos exercícios de matemática e as mesmas palavras, com A, com B, com C, com D, com D, com D... Estas mãos ainda tremem e suam frio antes de sonharem acarinhar, brevemente, mais uma vez, teus cabelos sem luar, teus ombros, antes de sonharem tombar no precipício calicino da tua cintura. Estas mãos minhas não se desvencilhariam da cola tenaz das tuas mãos, a não ser quisesses muito. E olha, pensando bem, possivelmente nem com tanto querer assim.
Não te entristeças jamais... já que, afinal, quem faz os calendários ainda sou eu, todo mês. Ainda escrevendo de azul o que era para ser vermelho e de preto, o que era para ser azul e, de vermelho, o que era para ser azul e preto. E já que, no fundo, sempre foi e continuará sendo, para onde apontam os teus seios, que eu cego seguirei.
(Gu)
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
dentes e sorrisos
o sorriso inerente
como aos pássaros
a arcada crocodileana
sempremente
houvera antes nunca sabido um sorriso assim
sábio, pensava
queria ser um crocodilo.
(biel)
como aos pássaros
a arcada crocodileana
sempremente
houvera antes nunca sabido um sorriso assim
sábio, pensava
queria ser um crocodilo.
(biel)
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Excerto de relatório de estágio: sem mês
Aconteceu num dia tipicamente paulistano. A manhã assoberbada por uma série de compromissos, obrigações, responsabilidades, que não se acomodariam à manhã nem que ela tivesse 6 horas a mais do já tem. Saí uns minutos atrasado, abandonando alguns deveres; esperei muito tempo o ônibus. Que, não satisfeito em atrasar, resolve se quebrar no meio do caminho. Outra longa espera, sob o sol à pino ardido. Cheguei na escola quase 2 aulas inteiras atrasado, prestes ao recreio, já sem voz para me desculpar diante da Diane, das nossas crianças, nem de mim mesmo - afinal de contas, dentre tantas razões boas e melhores, como vou eu cobrar disciplina dos meninos, se eu não a tenho nem de chegar no horário estabelecido? O Victor me chamou. Abri os lábios para dizer que já ia, a voz definitivamente decidiu não sair e se esconder lá no fundo, apenas balancei a cabeça cabisbaixa e fui em direção a ele. Me abaixei para ouvir o que ele queria, temeroso. Ele deu uma fungadinha esperta nos meus cabelos e disse sorrindo satisfeito:
- Olha, gente! O professor tá com cheiro de sol!
- Olha, gente! O professor tá com cheiro de sol!
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
do outro lado do desejo
o sangue havia passado incólume por algumas paixonites infecciosas q só geraram catarro. sentiu invadir-se daquele olhar e, de leve, tremeram suas coxas numa convulsão involuntária e desconhecida até então. em delírio no momento seguinte, quando desviou os olhos, sentiu vestir roupa demais e uma necessidade de despir-se quase a nocauteou, não fosse o comentário sem relevância e estúpido, mas com algum sentido naquele contexto, da amiga que despercebeu o momento que seria eternizado com um prazer faminto que quase não pode esperar a noite, o escuro e a solidão do quarto de menina para ser eternizado. e daí que a sua amiga tinha menstruado, era o seu primeiro pensamento, ela não precisava saber exatamente o que acontecia com o corpo dela. mas depois, quando subiu as escadas, não conseguia parar de pensar no vermelho. o vermelho até então não vazado. não pensava em sua menstruação que fora até precoce e mal conseguia pensar nela sem lembrar das terríveis cólicas. mas na ferida causada pelo amor a que ainda estava sujeita por falta dele. por não ter ainda sentido aquele olhar tão em si. seria dele, e não demoraria.
(biel)
(biel)
segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
do desejo
uma sombra de desejo o assombrou! não queria mas por aquele segundo só, como um pit-bull olha o bebê rosado a engatinhar na grama, ele a devorou. seus olhos esverdearam, perdendo o castanho pela cor da espera. um verde vivo e denso como o sangue da virgem em núpcia!
lambia a saliva e sentia-a escorrer garganta a dentro. já era de longa data que a conhecia, mas nunca como agora a desejaria. com completa devoção e voracidade e ferocidade e, mais que tudo, tatilmente.
a escorrer na pele aqueles suaves pêlos redesenhados pela mão e uma convulsão estreita nas coxas a sonhar.
cada pedaço era um encaixe, como se antes fora um pedaço seu próprio e, desmembrado, agora pedia reeencontro. e ela o teria. não demoraria.
(biel)
lambia a saliva e sentia-a escorrer garganta a dentro. já era de longa data que a conhecia, mas nunca como agora a desejaria. com completa devoção e voracidade e ferocidade e, mais que tudo, tatilmente.
a escorrer na pele aqueles suaves pêlos redesenhados pela mão e uma convulsão estreita nas coxas a sonhar.
cada pedaço era um encaixe, como se antes fora um pedaço seu próprio e, desmembrado, agora pedia reeencontro. e ela o teria. não demoraria.
(biel)
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
versos pra Tata - antes de saber seu nome ou seu apelido
vos peço um minuto
da vossa atenção
pois eu juro que
bem no coração
de São Paulo está
a Paulista, não?
mas e da Paulista,
onde o coração?
está no Conjunto
Nacional, dirão!
pois e do Conjunto,
onde o coração?
ora, na Cultura,
com toda razão,
mas e da Cultura,
onde o coração?
aí eu vos digo,
se dais permissão,
é nela morena,
mais linda, mais tão...
mas mais linda mesmo
mais ainda é sua mão
embrulhando livros
e o meu coração
e embrulhando o mundo
num abraço irmão
de proteger tudo
do perverso Não
gosto mais gostoso
que estar no torrão
e que estar no colo
em meio a trovão
gosto mais gostoso
que uva, que mamão
gosto não de fruta:
de abismo, de vão
sorriso mais lindo
que flor de porção
mais linda do que
bola de sabão
lindo que parece
mais uma poção
que parece nuvem
vista do avião
te vi no domingo
e perdi o chão
olhe que eu não minto
é vero, é verão!
(Gu)
da vossa atenção
pois eu juro que
bem no coração
de São Paulo está
a Paulista, não?
mas e da Paulista,
onde o coração?
está no Conjunto
Nacional, dirão!
pois e do Conjunto,
onde o coração?
ora, na Cultura,
com toda razão,
mas e da Cultura,
onde o coração?
aí eu vos digo,
se dais permissão,
é nela morena,
mais linda, mais tão...
mas mais linda mesmo
mais ainda é sua mão
embrulhando livros
e o meu coração
e embrulhando o mundo
num abraço irmão
de proteger tudo
do perverso Não
gosto mais gostoso
que estar no torrão
e que estar no colo
em meio a trovão
gosto mais gostoso
que uva, que mamão
gosto não de fruta:
de abismo, de vão
sorriso mais lindo
que flor de porção
mais linda do que
bola de sabão
lindo que parece
mais uma poção
que parece nuvem
vista do avião
te vi no domingo
e perdi o chão
olhe que eu não minto
é vero, é verão!
(Gu)
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